El Niño e comércio exterior: o que o fenômeno de 2026 muda no caixa de quem importa e exporta
El Niño e comércio exterior entraram na mesma equação em setembro de 2026. No dia 3, o Canal do Panamá começou a liberar menos navios por dia. Em Manaus, a régua do Rio Negro marcava, no dia 18, mais de três metros abaixo do nível da mesma data de 2025. E a previsão oficial para a primavera no Rio Grande do Sul é de chuva acima da média.
Os três fatos têm origem no mesmo fenômeno climático e chegam à operação pelo mesmo caminho: prazo maior, frete mais caro e dinheiro parado por mais tempo.
Este artigo mostra onde o El Niño de 2026 toca as rotas e os portos usados pelo Brasil, como isso se transforma em custo financeiro e o que ajustar agora na sua operação.
O El Niño de 2026 afeta o comércio exterior brasileiro por três canais: restrições no Canal do Panamá, que reduzem a oferta de navios; seca nos rios da Amazônia, que atrasa e encarece a cabotagem para Manaus; e excesso de chuva no Sul, que ameaça operações portuárias. O efeito financeiro é prazo mais longo, frete maior e capital imobilizado por mais dias.
O que os órgãos oficiais dizem sobre o El Niño de 2026
O El Niño é o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial, que altera o regime de chuvas e temperaturas em várias regiões do planeta ao mesmo tempo.
Na discussão publicada em 10 de setembro de 2026, o Climate Prediction Center da NOAA, a agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, manteve o alerta de El Niño e atribuiu mais de 90% de chance de um evento muito forte entre o outono e o inverno do Hemisfério Norte. Para o trimestre de outubro a dezembro, a agência estima 75% de probabilidade de o evento superar em intensidade todos os El Niño registrados desde 1950. A próxima atualização está marcada para 8 de outubro.
No Brasil, o boletim sobre o fenômeno divulgado em setembro pelo INMET, o Instituto Nacional de Meteorologia, projeta para setembro, outubro e novembro chuva acima da média no Sul, com destaque para o Rio Grande do Sul, e em áreas de São Paulo e Mato Grosso do Sul. No sentido oposto, Norte e Nordeste têm maior probabilidade de chuva abaixo da média, com tendência semelhante em partes de Mato Grosso, Tocantins, Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo. As temperaturas devem ficar acima da média em grande parte do país.
Um cuidado de leitura: o El Niño aumenta a probabilidade de certos eventos, sem garantir cada um deles. Para quem opera comércio exterior, o dado útil é o risco que já está se materializando em rotas e portos específicos.
Onde El Niño e comércio exterior se encontram: as três frentes
Canal do Panamá: menos travessias e navios mais leves
O Canal do Panamá depende da água da chuva acumulada nos lagos Gatún e Alhajuela. Com a estiagem associada ao El Niño, a Autoridade do Canal reduziu o limite diário de travessias de 36 para 32 navios até 15 de setembro e baixou gradualmente o calado máximo permitido de 15,24 metros para 14,63 metros. O calado é a profundidade que o casco ocupa na água; calado menor significa navio carregando menos carga por viagem.
Para o ano fiscal que começa em outubro, a proposta orçamentária do canal trabalha com média próxima de 29 travessias diárias e estima 743 embarcações e 5 milhões de toneladas a menos até setembro de 2027. O canal responde por cerca de 5% do comércio marítimo mundial.
Para o Brasil, o efeito é majoritariamente indireto. A carga da Ásia para Santos, Paranaguá ou Itajaí costuma seguir por outras rotas, mas a redução de capacidade no Panamá reorganiza a frota global, desvia navios e pressiona o preço do frete nas rotas que concorrem pelos mesmos navios.
Amazônia: vazante forte e custo extra na cabotagem
Na Bacia Amazônica, a estação seca vai de junho a novembro, com os níveis mais baixos dos rios entre setembro e outubro. Em 18 de setembro de 2026, a régua do porto de Manaus marcou 21,26 metros, 3,41 metros abaixo da mesma data de 2025. Foi a terceira menor cota para aquele dia desde 2021, acima apenas de 2023 e 2024, os anos em que o Rio Negro chegou às mínimas históricas de 12,70 e 12,66 metros.
A seca na Amazônia afeta diretamente quem importa insumo para o Polo Industrial de Manaus e quem vende para a região. O precedente mostra como isso chega à fatura: em setembro de 2025, um armador de cabotagem anunciou sobretaxa de R$ 3.000 por TEU (a unidade equivalente a um contêiner de 20 pés) para embarques saindo de Manaus e de R$ 4.500 por TEU para embarques com destino a Manaus, válida enquanto o rio ficasse abaixo de 19,80 metros. Com o rio mais baixo em 2026 do que no ano anterior na mesma data, a cobrança de sobretaxas desse tipo tende a entrar mais cedo no calendário.
Sul e Sudeste: excesso de chuva e janelas de operação
No Sul, o risco é o oposto. Chuva intensa e concentrada costuma interromper embarque de granéis, alongar filas de navios e bloquear acessos rodoviários aos terminais. Para quem usa Rio Grande, Itajaí, São Francisco do Sul ou Paranaguá, isso significa janelas de atracação menos previsíveis e maior chance de armazenagem e sobre-estadia.
Frete: o clima entra num mercado já pressionado
O índice mundial de fretes de contêiner da Drewry fechou em US$ 4.468 por contêiner de 40 pés em 24 de setembro de 2026. O índice da consultoria para o comércio intra-Ásia marcou recorde por quatro semanas seguidas até 17 de setembro, com tufões e tensões no Oriente Médio restringindo a capacidade. O El Niño se soma a pressões que já existiam, o que reduz a margem de absorção do mercado.
Como o clima vira custo financeiro na operação
Na prática, a relação entre El Niño e comércio exterior aparece no caixa por cinco caminhos:
| Efeito físico | Onde aparece no caixa | Quem sente primeiro |
|---|---|---|
| Trânsito mais longo ou omissão de escala | Capital imobilizado por mais dias | Importador que pagou o fornecedor antes do embarque |
| Sobretaxa de frete | Frete maior e base de cálculo dos tributos maior | Importador |
| Atraso no embarque | Recebimento adiado, porque o prazo de pagamento costuma contar a partir do embarque | Exportador que vende a prazo |
| Porto congestionado ou parado | Armazenagem e sobre-estadia de contêiner | Importador e exportador |
| Quebra de safra ou oferta irregular | Preço de insumo e volume exportado | Agronegócio e indústria que importa insumo |
Conta 1: cada dia a mais de trânsito tem preço
Considere uma importação com R$ 1 milhão já pagos ao fornecedor. Se o trânsito se alonga 15 dias, o custo de oportunidade desse capital, usando como referência a Selic de 14,25% ao ano vigente em setembro de 2026, é de cerca de R$ 5.490. Essa é a conta mais barata possível: se o recurso vier de capital de giro bancário, o custo efetivo costuma ser maior.
Conta 2: o frete mais caro também paga imposto
No Brasil, o frete internacional compõe o valor aduaneiro, a base sobre a qual incidem os tributos da importação. Em um exemplo com alíquotas hipotéticas (imposto de importação de 14%, IPI de 10%, PIS e Cofins-Importação de 2,1% e 9,65%, ICMS de 18%) e o AFRMM de 8% sobre o frete, cada R$ 1,00 a mais de frete gera cerca de R$ 1,77 de desembolso até a liberação da carga. Parte desses tributos pode voltar como crédito, conforme o regime da empresa, mas o dinheiro sai antes.
O câmbio fica fora dessas contas de propósito. Não há como prever a direção do dólar, e decisões de operação não devem depender de aposta cambial.
O que ajustar agora na sua operação
1. Refaça o custo total com prazo alongado. Recalcule o custo total de importação com 10, 15 e 20 dias a mais de trânsito e com o frete atual, não o da cotação antiga. Se a margem só fecha no cenário sem atraso, a operação está exposta.
2. Revise contratos e prazos. Verifique free time de contêiner, cláusulas de sobretaxa no contrato de frete, o Incoterm negociado e em que momento o pagamento ao fornecedor ou pelo comprador é disparado: no embarque, na chegada ou contra documentos.
3. Estruture a liquidez para um ciclo mais longo. Se o prazo entre pagar e vender cresce, o capital de giro precisa acompanhar. Para o importador que paga antecipado, faz sentido entender como funciona o Cargo Equity, da NAC, que usa a própria carga como garantia e cobre até 80% da invoice em pagamento antecipado ao fornecedor. Para o exportador que embarcou e espera o comprador pagar, o NAC Air analisa a carteira de importadores em até 24 horas e paga na data da aprovação.
Como a NAC entra nesse ciclo
Na importação, o Cargo Equity funciona dentro do próprio ciclo da carga: o contrato é feito em reais pela PTAX do dia, sem IOF, sem exigência de recebíveis ou hedge e sem gerar endividamento no Sisbacen, com garantia rotativa para cargas FCL e LCL. Na exportação, o NAC Air antecipa o que o exportador só receberia no vencimento da venda. Em ambos os casos, as condições dependem de análise.
Quem quer entender o efeito do custo de capital parado em detalhe pode ler também Capital de Giro com Carga em Trânsito.
Perguntas frequentes
O El Niño de 2026 já está confirmado? Sim. A NOAA declarou a formação do El Niño em junho de 2026 e, na discussão de 10 de setembro, manteve o alerta com mais de 90% de chance de um evento muito forte até o inverno do Hemisfério Norte. O INMET também confirma o fenômeno e publica boletins periódicos sobre os impactos no Brasil.
As restrições no Canal do Panamá afetam importações do Brasil vindas da China? De forma indireta. A maior parte da carga da Ásia para os portos brasileiros não cruza o Panamá. O efeito chega pela redistribuição de navios entre rotas e pela pressão sobre o frete global, que tende a se espalhar para outras rotas quando a capacidade de uma passagem importante diminui.
Por que um frete mais caro aumenta os tributos da importação? Porque o frete internacional integra o valor aduaneiro, base do imposto de importação, do PIS e da Cofins-Importação e, em cadeia, do IPI e do ICMS. O AFRMM, de 8% na navegação de longo curso, incide diretamente sobre o frete. Sobretaxa de frete, portanto, aumenta a base de vários tributos ao mesmo tempo.
Quando a seca na Amazônia costuma atingir o pico? A estação seca na Bacia Amazônica vai de junho a novembro, e os níveis mínimos dos rios costumam ocorrer entre setembro e outubro. Em 2023 e 2024, o Rio Negro atingiu as menores cotas da série em Manaus. Em setembro de 2026, o nível estava mais baixo que no mesmo período de 2025.
O El Niño vai fazer o dólar subir? Não há base para afirmar isso. O câmbio responde a juros, fluxo de capital, cenário fiscal e fatores externos, e o clima é apenas um entre muitos elementos. A decisão mais segura é proteger a operação por prazo e custo total, sem depender de previsão cambial.
O critério de decisão
Na relação entre El Niño e comércio exterior, a pergunta que organiza a decisão é quantos dias a sua operação suporta de atraso antes de a margem desaparecer. Se esse número for menor que o atraso possível nas rotas que você usa, o ajuste precisa acontecer em contrato, em preço ou em estrutura de capital de giro, e de preferência antes de a próxima carga embarcar.
Seu ciclo entre pagar o fornecedor e vender a mercadoria ficou mais longo? Fale com um especialista NAC e veja como estruturar o capital de giro da operação para o novo prazo.
A NAC Digital não é uma instituição financeira. Atua como correspondente bancário de instituições autorizadas a operar pelo Banco Central do Brasil. As condições apresentadas estão sujeitas a análise e podem variar conforme a operação. Este conteúdo tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.



